MAQUILA NO PARAGUAI EM 2026: POR QUE O REGIME DEVE SER ANALISADO COMO ESTRATÉGIA INDUSTRIAL, E NÃO APENAS COMO BENEFÍCIO TRIBUTÁRIO

1 de outubro de 2026

NOVA LEI Nº 7.547/2025, REGULAMENTADA EM 2026, MODERNIZOU O REGIME. EXPORTAÇÕES SOB MAQUILA ALCANÇARAM US$ 717 MILHÕES NO PRIMEIRO SEMESTRE, E O BRASIL CONTINUA SENDO O PRINCIPAL MERCADO DE DESTINO.

Por Gabriel Enebelo | Enebelo Advogados Associados

Quando empresários brasileiros ouvem falar sobre Maquila no Paraguai, uma informação normalmente aparece primeiro:

1% de imposto.

A afirmação possui fundamento.

Mas é insuficiente para compreender o regime.

Maquila é muito mais do que uma alíquota.

É uma estrutura jurídica, industrial, aduaneira e logística destinada à produção de bens e prestação de serviços orientados à exportação.

E 2026 trouxe uma atualização importante desse ambiente.

O PARAGUAI POSSUI UMA NOVA LEI DE MAQUILA

A Lei nº 7.547/2025 substituiu a antiga Lei nº 1.064/1997.

O novo regime foi regulamentado em abril de 2026 pelo Decreto nº 5.714.

A atualização busca modernizar procedimentos e adaptar o sistema às novas formas de produção e comércio internacional.

O TRIBUTO ÚNICO DE 1% CONTINUA SENDO UMA DAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

O art. 37 da nova lei estabelece tributo único de Maquila à alíquota de 1%.

A base corresponde ao maior valor entre:

valor agregado no território paraguaio;

ou valor da fatura de exportação,

nos termos definidos pela legislação.

Esse é um benefício relevante.

Mas isoladamente não determina a viabilidade do projeto.

O REGIME TAMBÉM POSSUI DINÂMICA ADUANEIRA PRÓPRIA

O regime permite a importação temporária de matérias-primas, insumos, componentes e determinados bens necessários à execução do programa de Maquila, observadas as regras e garantias aplicáveis.

Isso integra produção, importação e exportação dentro de uma lógica específica.

Por isso, o planejamento precisa envolver comércio exterior desde o início.

SERVIÇOS PASSARAM A TER MAIOR ESPAÇO

A modernização também incorporou de forma mais clara serviços destinados à exportação, ampliando o alcance econômico do regime além da indústria tradicional.

Isso abre novas possibilidades, mas também exige modelagem adequada da operação.

OS NÚMEROS DE 2026 MOSTRAM QUE O REGIME GANHOU ESCALA

No primeiro semestre de 2026, as exportações sob o Regime de Maquila chegaram a US$ 717 milhões.

O resultado representou crescimento de 25% em relação ao período comparável anterior.

As empresas vinculadas ao regime empregavam mais de 36 mil pessoas.

Autopartes, confecções, alimentos e bebidas e manufaturas de alumínio estão entre os setores com presença relevante.

O BRASIL É O PRINCIPAL DESTINO

Um dado merece atenção especial de empresários brasileiros.

No primeiro semestre, o Brasil absorveu 62% das exportações paraguaias produzidas sob Maquila.

Isso muda a interpretação do regime.

Não estamos necessariamente diante de uma decisão entre:

produzir no Brasil

ou

produzir no Paraguai.

Para determinadas cadeias, a decisão pode ser:

qual etapa faz sentido manter no Brasil e qual etapa pode ser realizada no Paraguai?

Essa é uma pergunta industrial.

A ESTRATÉGIA PODE SER BINACIONAL

Uma empresa brasileira pode possuir:

mercado;

distribuição;

marca;

clientes;

engenharia;

ou parte do processo produtivo no Brasil,

e utilizar uma estrutura paraguaia para determinada etapa de transformação destinada à exportação.

A viabilidade depende de cada setor.

Mas o raciocínio precisa ser construído considerando a cadeia como um todo.

IMPOSTO BAIXO NÃO COMPENSA OPERAÇÃO RUIM

Esse é provavelmente o maior erro de análise.

Suponha que determinada operação economize tributos.

Mas:

a logística seja ineficiente;

a mão de obra necessária não esteja disponível;

o custo energético não produza vantagem;

o fornecedor esteja longe;

ou a estrutura aduaneira inviabilize o fluxo.

Nesse cenário, a economia fiscal não sustenta o investimento.

Tributação é apenas uma linha da planilha.

A MODELAGEM PRECISA COMEÇAR PELO NEGÓCIO

Antes de constituir uma empresa, o investidor precisa responder:

o que será produzido?

para onde será exportado?

qual matéria-prima será utilizada?

de onde virá?

qual o volume?

qual o custo logístico?

qual mão de obra?

qual demanda energética?

qual estrutura de capital?

qual relação com a matriz?

qual mercado receberá o produto?

Depois disso vem a estrutura jurídica.

CONTRATO DE MAQUILA E PROGRAMA PRECISAM REFLETIR A OPERAÇÃO

O modelo não funciona simplesmente pela constituição de uma sociedade paraguaia.

Existe programa de Maquila.

Contrato.

Aprovação.

Procedimentos.

Operação aduaneira.

Controle de entradas e saídas.

E obrigações específicas.

A estrutura formal precisa refletir aquilo que a empresa fará de verdade.

SOCIEDADE E TRIBUTAÇÃO BRASILEIRAS TAMBÉM PRECISAM SER ANALISADAS

Quando o investidor, controlador ou grupo permanece no Brasil, a análise não termina na fronteira.

Podem existir impactos relacionados a:

estrutura societária;

remessas;

preços de transferência;

operações entre partes relacionadas;

tributação de resultados;

residência fiscal;

e compliance internacional.

A eficiência paraguaia precisa estar compatível com as obrigações brasileiras.

A DECISÃO É INDUSTRIAL

Essa é a principal tese.

Maquila pode gerar relevante eficiência tributária.

Mas uma fábrica não existe para pagar imposto.

Existe para produzir com competitividade.

Por isso, a pergunta correta não é:

“quanto imposto vou economizar?”

É:

“essa estrutura torna minha operação mais competitiva?”

Tributo entra na resposta.

Mas não é a resposta inteira.

CONCLUSÃO

O crescimento da Maquila no Paraguai mostra que o regime se consolidou como instrumento relevante de política industrial.

A nova legislação modernizou sua estrutura.

Os números de 2026 demonstram expansão.

E o Brasil permanece como seu principal mercado.

Para empresários brasileiros, isso cria oportunidades concretas.

Mas exige análise.

Logística.

Mercado.

Tributação.

Estrutura societária.

Contratos.

Mão de obra.

Energia.

Comércio exterior.

Maquila não é apenas imposto de 1%. É um modelo operacional.

E sua eficiência depende da qualidade com que esse modelo é construído.

O EAA acompanha o ambiente empresarial Brasil–Paraguai, avaliando estruturas, tributação e projetos de internacionalização sob a perspectiva jurídica, econômica e operacional do negócio.

Informação é poder. Mas a execução gera resultados.